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106 vs 108 – Duas realidades diferentes

Quando se diz que o mundo é feito de contrastes, isso pode ser bem verdade, e no que toca a duas carreiras de origem similar terem percursos de vida diferentes, também. Essa é a história das duas carreiras do bairro das Galinheiras, o 106 e o 108.

Criados a partir de 2 desdobramentos da mesma carreira, o 17, que terei hipóteses de falar sobre ela mais tarde, com o (segundo) 17A (106) e o 17B (108) que foram criados em 1975, para ligar o Bairro das Galinheiras até aos pontos de acesso ao metropolitano (17A = Alvalade e 17B = Campo Pequeno, via Lumiar) e ambas com terminal nas Galinheiras (até aos principios de 1990 com a 17A a chegar alternadamente á Torrinha).

Mas a partir de 1993, começa a ter contornos de maior distinção: O Metropolitano de Lisboa chega ao Campo Grande e Alvalade começa a perder carácter de Hub rodoviário de acesso ao Metro. A Carris, por ventura terá de fazer alterações de fundo com as carreiras. A 36A, por seu turno é encurtada ao Campo Grande (vinda de Entrecampos) e a 7A igualmente é encurtada a esse terminal (vinda de Alvalade).

Em 19 de Setembro de 1994, dá se as alterações da rede Carris, onde o 17A recebe um completo “overhaul” para ter um percurso mais directo (com um novo terminal nas Galinheiras, passando pela Torrinha e Calçada de Carriche/Estrada do Desvio, Lumiar e Alameda das Linhas de Torres, acompanhando o 36 de perto, e esquecendo o percurso menos directo via Musgueira), e é renomeado como 106. Os horários desta carreira inicialmente são modestos e não havia (ainda) serviço aos domingos, mas a grande fiabilidade demonstrada irá reforçá-la ao longo dos tempos e irá ganhar, porventura, o serviço aos domingos e o serviço nocturno dos dias úteis, e igualmente de notar, que é a única carreira do bairro das Galinheiras, isto na minha opinião, a ter a proeza de usar veículos de grande capacidade – os Volvo B10M de 1990-92 (estes apenas uma vez), 1995 (estes só em 2008 e 2010, quando estiveram na Musgueira) e 1997 (estes eram os articulados mais comuns de ver) – As Séries 1500, 1530 e 1560, respectivamente) (e que ainda hoje, como 796, acontece, com os Mercedes-Benz Citaro G (Série 4621-4650)).

Outro fruto desta alteração, a partir do 17B (mantendo o percurso Galinheiras-Campo Pequeno) foi o 108. O 108, que ao contrário do seu congénere 106, não trouxe nada de novo (a nível de percurso e horário de funcionamento) em relação ao referido 17B. Luís-Cruz Filipe referiu mesmo [sic] que fazia lembrar a passagem do 1A a 45 trinta anos antes (A Minha Página Carris, página “História”, capítulo “Decadência: De 1991 a 2003”, consultado em 2012-13). Mas ainda assim interessante o suficiente para quem se quer ligar do bairro das Galinheiras, Charneca e Lumiar ás Avenidas Novas, como alternativa, isto no último caso, ás já sobrecarregadas 1 e 36 (se bem que a partir do Hospital Pulido Valente o 47 constituia-se igualmente como tal).

O 106 vai-se manter uma carreira mais ou menos estável até quase ao final da sua vida (2010), contando, para além dos reforços, serviços adicionais no Euro 2004 onde paravam um pouco mais á frente, junto ao Estádio de Alvalade. Quanto ao percurso, em 1997, funde-se com a já extinta 102 (igualmente criada após 19 de Setembro de 1994, esta descendente do 7A), no percurso entre a Avenida Padre Cruz e a Calçada de Carriche, isto no sentido Galinheiras, onde posteriormente ao ter descido a Avenida Padre Cruz e a Calçada de Carriche entrava no início da Rua José Pinto Correia, (onde já a percorria na íntegra, isto no sentido oposto, e onde antes no sentido Galinheiras entrava na referida rua quando virava e vinha da Estrada do Desvio e da Rua Alexandre Ferreira). Mais tarde, recebe uma paragem na recem-inaugurada Piscina Municipal da Ameixoeira (2006).

Levará reforços de horários constantes, o último dos quais em 2005 (se não estiver em erro), onde passa a ter uma frequência de 14 em 14 minutos ao corpo do dia (Inverno, Verão e Férias Escolares), para além das frequências de 4/5 minutos ás pontas da manhã (sentido descendente) e de 7 á da tarde (isto no período de Inverno & Férias Escolares), contando com uma presença de autocarros variada, desde autocarros que já nem deveriam circular, como os MAN da Série 2000 e 2100, até veículos completamente novos (os Mercedes-Benz OC500 em 2006, por exemplo), passando pelos monstruosos Volvo B10M de 1995 e 1997 que por vezes iam á carreira, até veículos de outra estação (os MAN 18.310 HOCL-NL (Caetano – Série 2200, e Marcopolo Viale – Série 2300) de Miraflores, os MAN 18.280 HOCL-NL (Marcopolo Viale – Série 2400) da Pontinha, bem como os Volvo B59-55A (Série 1300) e os Volvo B10R (Série 1400) da mesma estação).

A 108, por seu turno, neste nível, mantém-se mais estável sendo preferencialmente usados os já referidos MAN 2000 e 2100, e o número de vezes onde é colocado outro autocarro diferente do comum é mais baixo do que na própria 106 (isto apesar do 108 ter se efectuado por algum tempo com os Volvo B59-55A, da já referida Série 1300).

O 108, por seu turno leva igualmente um reforço horário, mas não tão forte como o do seu congénere. O 108 sofrerá uma alteração de terminal, aquando das obras da Praça de Touros do Campo Pequeno, onde é prolongado, tal como o 21 (referido anteriormente), ainda que provisóriamente, ao Saldanha. Mas isso quase que se acaba por revelar fatal para a carreira: A partir do Campo Grande até ao terminal, os autocarros, a partir de 2000, andavam completamente vazios, e, citando de novo Luís Cruz-Filipe [sic] fazendo inveja a outras carreiras com excesso de procura (História das Carreiras da Carris (Blog), artigo “108: A promessa nunca cumprida”, consultado em 2013). Em 2004, a resposta não esperou, e o 108 foi encurtado ao Campo Grande, tal como aconteceu ao 47 uns anos antes e o duopólio das ligações Lumiar-Avenidas Novas ficava dividido entre o 36 e o Metro. Esta 108, com um horário reforçado (com maiores frequências) por via da manutenção do nº de chapas da carreira em funcionamento, permitindo o reforço áquela zona que estava em franco crescimento (a Alta de Lisboa). Durante as 05h40 e as 06h45, a carreira ainda mantém autocarros prolongados ao Saldanha, isto antes do Metro abrir. A 108 ainda-se manteve a funcionar como uma carreira com uma grande oferta, isto apesar do restabelecimento e reformulação do 77 (ex-36A, criado em 1997, que chegou a ser suprimido em 2001, mas restabelecido meses depois, após a demolição dos bairros da Musgueira, e, esse restabelecimento permitiu ao 77 rivalizar com o 108) e do crescimento de rompante do 106 (aqui igualmente falado neste post).

A nível de autocarros, a 106 e a 108, a partir de 2006, ganham um veículo quase definido (o Volvo B7L – a série 1601-1635), que no caso da 106, mantiveram-se ainda na 796 até 2012-13 (onde passou a usar os Volvo B7R LE de 2005, os Mercedes-Benz OC500 do mesmo ano (e de 2006) e os Volvo B7R LE Mk3 de 2009), e no caso da 108, mantém-se até 2009, onde recebe os referidos Volvo B7R LE Mk3 recém comprados na altura.

Em 2010, a 106 passa a 796, onde recebe uma pequena alteração no Bairro das Galinheiras, onde mantém (com ligeiríssimas alterações) o horário de funcionamento e a sua relativa rotatividade de veículos, bem como a sua (ligeiramente menor) fiabilidade (menor porque existiu um trade-off entre a fiabilidade e a alteração de percurso, mas foi recentemente resolvida).  Quanto á 108, chegou-se a falar em prolongamento á Estção do Oriente, usando o percurso da 750, que seria encurtada, mas em que nada aconteceu. E em 2011, a 108 recebe o primeiro dos revéses: o primeiro corte de horário em vários anos – a frequência, ás horas de ponta, desde 2004 era de 7 em 7 minutos, mas a partir de 2011 passa a ser de 9 em 9 e no periodo do corpo do dia, passou de 10 em 10 para de 12 em 12. Isto deve-se sobretudo á queda da procura por parte de quem trabalha (as medidas de austeridade já se faziam sentir, e havia cada vez mais desemprego).

Em 2012 a carreira 108 é alterada, e leva um dos mais duros golpes: perde os fins-de-semana e feriados, deixa de passar no Lumiar, adoptando o percurso da já suprimida 777 (até á Estação da Musgueira), é lhe reduzida a frequência (várias vezes, incuíndo uma recentemente, onde a frequência no corpo do dia passou a ser de 30 minutos) e é renomeada 798, sendo o percurso do Lumiar efectuado por um desvio do 717 para aquela zona, demorando, isto de Charneca a Alvalade, mais 10 ou 20 minutos que antigamente. Vários protestos e contestações seguiram e a Carris foi obrigada a trazer o espírito do 108 de volta: A 717 passa a ter extraordinários das Galinheiras ao Campo Grande (na hora de ponta da manhã) e do Campo Grande ás Galinheiras (na da Tarde). Para recordar a glória dos tempos do 108, a 798 ainda irá dispor das viagens entre o Saldanha e as Galinheiras, no mesmo período referido do dito prolongamento matinal do 108 (entre as 05h40 e as 06h20, se não estiver a omitir algo).

Conclusão: no caso da 106, demonstrou-se que não foi necessário andar-se a inventar tanta coisa, e ainda assim fez-se uma carreira que conquistou um forte potencial ao longo dos anos, quer na sua versão original, quer como 796.

No caso da 108, foi a demonstração pura de o que pode acontecer com um imobilismo que havia na altura (com carreiras a serem renúmeradas sem alteração nenhuma no percurso/horário) em relação a um meio de transporte rival que florescia – o Metro (isto foi nos anos 90, a Carris estava nos momentos mais decadentes a nível de autocarros) e que a uma certa altura, que tinha quase tudo para ser uma das grandes carreiras, acabou por se esvair em promessas que nunca foram cumpridas.

Fontes Consultadas:

  • Para além daquelas citações já referidas do autor Luís Cruz-Filipe, também foi consultado do mesmo autor: História das Carreiras da Carris – 106: A grande revelação e o já referido 108: A promessa nunca cumprida e A Minha Página Carris, página Listagem, e as páginas particulares do 106 e 108 e o artigo A Carris na Alta de Lisboa, do blog viver na Alta de Lisboa, cujo artigo pode ser consultado aqui;
  • Documentos Oficiais da Companhia Carris de Ferro de Lisboa (dos anos 90, dos anos de 2000, de 2010 (3ª fase da Rede 7) e 2012 (alteração do 717 e do 108/798), bem como os vários horários oficiais);
  • Conhecimentos pessoais acerca dos casos particulares das carreiras;
  • Jornais e Telejornais da época.